quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Aruanda

 Era alta madrugada e encontrei-me nu sob as estrelas de Aruanda. Cansado da aparente falta de sentido em mais uma grande cidade brasileira... fui, mesmo sem confiar no êxito da empreitada, em busca de respostas para perguntas mal formuladas. Vi-me no fundo da mata virgem de um lugar que muitos dizem existir o qual não tinha experiência alguma, muito menos uma capaz de suportar qualquer juízo a esse respeito.

É assim que minha criatividade preenche a lacuna de informações. Em meio a presunções decorrentes de palavras ditas por até aquele momento um desconhecido. Nenhuma delas foi dita para acalmar-me- não estava nervoso, por sinal. Foi uma operação perfeita, fui agarrado sem qualquer resistência. Um sequestro e um resgate guardam completa semelhança em sua operação. A causa por trás da ação, se restritiva ou libertadora, é matéria que diz respeito aos agentes da própria ação não a quem as sofre. Principalmente no palco de operações, quando as coisas estão acontecendo, momento que a fumaça está sendo produzida e o cano ainda está quente.

Estava tudo escuro. Em um português brasileiro proferido em uma dicção perfeita, clara, decidida, foram proferidas palavras mágicas em uma fórmula que me parecia mais do que ensaiada, internalizadas e provenientes do recôndito de um coração amoroso “ minhas mãos estão sobre os seus olhos meus olhos serão os seus olhos, minhas mãos serão as suas mãos”. Essa era parte de uma fala mântrica que evoluía no sentido da união entre mim e a consciência que controlava aquele aparelho fonador. Comecei a ver olhos desconexos que me recobriam na escuridão “Eu sou Pai X e estou aqui com (uma pessoa de nome longo e estrangeiro).

Eis que abri os olhos, que não eram os meus, mas de, segundo minha presunção, de quem estava sentado ouvindo a fala de quem se apresentou. Estava em uma estrutura elevada em frente a um homem pardo que estava sentado em uma almofada em postura de meia lótus, camisa entre-aberta, de barba rala ou por fazer, com um microfone de lapela, que continuou falando com a mesma confiança, lendo em um livro sem olhar para mim. Dessa vez relatava coisas sobre o que considero minha vida na terra, “considerando que não estava conseguindo equilibrar as contas ” e que “ eu tinha uma inteligência média que me garantia uma semi-influência” eu estava ali.

Enquanto ele falava no sistema de som passei a ter uma visão panorâmica do local, que era um galpão grande, alto e de paredes violetas. Havia janelões que davam para perceber que era noite e uma bandeira laranja, branca e verde, em um mastro do lado de fora e dois outros vazios. Árvores balançavam mais a frente com o toque do vento que acontecia do lado de fora, paisagem que me fez desejar ser dia para poder ver melhor a sagrada terra, que para nós é, sem dúvida, dos sonhos. Havia também outras construções muito menores que pareciam serem casas mais próximas da mata.

Ao lado desse homem sentado ao centro haviam outros homens perfilados em espiral descendente, distantes uns três metros cada um, também com sua almofada e um pedaço de toco ou uma mesinha onde apoiavam um livro grande e grosso de capa escura. Minha visão correu por todos como se tivesse olhando uma imagem tirada de uma câmera instalada em uma grua. Olhavam para seus livros, porém um deles, que se encontrava no nível mais baixo, olhava fixamente para mim. Não reconheci na hora. Este livro grande que portavam poderia ser comparado com uma lista telefônica pela sua grossura, mas uma comparação mais justa me parece ser com uma bíblia, posto que o zelo e o encadernamento era tão prestimoso quando dos livros que vemos em cultos evangélicos.

Creio que a meditação daquele grupo me atingiu tornando-me passível de auxílio, qual a extensão dele e as condições do acontecimento ainda não me é possível avaliar, porém trouxe-me renovada consciência da urgência do trabalho e ainda mais certeza de que o caminho a ser trilhado é coberto de muita renúncia e alegria. Agradeci a Deus e parei de ver com os olhos do amigo, voltei para a cama. Em meu corpo de olhos fechados, já acordado em meu corpo físico, fiquei um tempo assim. Ainda ouvia ao fundo algo, querendo regressar permaneci imóvel sem qualquer sucesso. Era 4:11 da manhã do dia 17 de agosto de 2023. 


Um comentário:

  1. Seu post me fez pensar no livro "Ioga", de Emmanuel Carrère. Despertou reflexões e vou relê-lo pois foi possível viajar com você por essa experiência.

    ResponderExcluir