sexta-feira, 3 de abril de 2026

Entre Instinto, Arquétipo[1] e Ordem: A Regulação do Impulso da Natureza à Alma e ao Espírito

 

Entre Instinto, Arquétipo[1] e Ordem: A Regulação do Impulso da Natureza à Alma e ao Espírito

 

 

Deivison de Paula[2]

 

 

A observação atenta da natureza e seus movimentos revela que, por trás da aparente brutalidade dos instintos, há uma ordem silenciosa e rigorosa que regula as espécies e permite o encontro que gera o florescimento da vida. A onça-pintada, por exemplo, representante dos grandes felinos, predadora solitária das Américas, encarna com precisão a presente reflexão entre impulso de vida e sua regulação própria numa camada anterior a consciência humana e sua liberdade.

Cada espécie possui um equilíbrio entre si no ambiente, o que traz rico material de análise e percepção a respeito da complexidade da vida à luz do simbolismo arquetípico e da psicologia analítica.  Nessa dimensão estritamente animal, o impulso, como veremos, não é caótico, mas regulado por um equilíbrio interno que prescinde de reflexão: a força se exerce dentro de limites que a própria natureza impõe.

A onça-pintada, predadora solitária das Américas, vive segundo um padrão de comportamento marcado por precisão e economia. Territorialista, delimita e percorre seu espaço com rigor, evitando confrontos desnecessários e preservando energia. Caça por emboscada, aproximando-se em silêncio até o momento exato do ataque, no qual emprega força concentrada e decisiva. Alimenta-se de forma oportunista, adaptando-se às presas disponíveis, e demonstra notável relação com o ambiente, sendo capaz de nadar e explorar tanto a terra quanto a água. Seus ciclos de atividade seguem ritmos naturais, alternando períodos de movimento e repouso de acordo com as condições do meio. Mesmo nos momentos reprodutivos, sua aproximação não é caótica, mas regulada por sinais específicos que coordenam encontro, aceitação e afastamento.

Do ponto de vista especulativo, o acasalamento da onça-pintada, aspecto em que pretendemos nos concentrar, pode ser compreendido como expressão de uma lógica mais profunda que transcende o indivíduo isolado. A fêmea, ao aceitar o encontro com o macho, não o faz em função de uma vantagem imediata — ao contrário, ela se expõe a um período de maior vulnerabilidade, no qual sua mobilidade é reduzida e sua atenção se divide entre a própria sobrevivência e a proteção dos filhotes, sem qualquer auxílio do macho. Ainda assim, ela se submete a esse ciclo. Isso sugere que o impulso reprodutivo não está orientado pela preservação do indivíduo em si, mas pela continuidade da vida enquanto ordem maior. A fêmea, por assim dizer, “cede” momentaneamente sua autonomia plena em favor de algo que a ultrapassa: a transmissão de um padrão, de uma linhagem, de uma forma de existir no mundo. O risco que assume não é irracional, mas inscrito em uma lógica na qual a vida se perpetua precisamente porque indivíduos aceitam, por instinto, participar de algo que excede seus próprios limites imediatos.

O princípio de expansão, mais evidente no macho da onça-pintada, impele-o a ultrapassar, em certos momentos, os limites ordinários de seu território, lançando-se em busca de uma fêmea. Esse movimento não é contínuo, mas intensificado quando sinais específicos indicam a possibilidade de encontro. A fêmea, por sua vez, em períodos determinados — o cio — suspende momentaneamente sua agressividade territorial, permitindo a aproximação e o acasalamento. Nesse instante, estabelece-se uma convergência rara entre expansão e receptividade: o macho cobre e a fêmea o recebe e, a partir daí ela assume integralmente o encargo da gestação e da criação. O que se segue, contudo, não é um benefício imediato para ela, nem para ele, mas um ciclo de maior vulnerabilidade, no caso dela e uma maior competição futura, no caso dele. Ainda assim, o casal eventual persiste. Tal dinâmica revela que a lógica que sustenta esse comportamento da espécie não se orienta pelo interesse individual imediato, mas pela continuidade da espécie — uma ordem na qual o risco assumido pela fêmea se converte em possibilidade de permanência da vida.

No plano biológico, esse encontro é regulado por mecanismos hormonais sofisticados. A fêmea entra em cio por ação de ciclos hormonais que a tornam receptiva, alterando sua tolerância e comportamento. O macho, ao detectar esses sinais, entra em um estado de excitação fisiológica — uma prontidão que o impele à aproximação. Contudo, essa aproximação não é eficaz pela intensidade, mas pela sintonia. Quando desajustada — seja por insistência excessiva, seja por inadequação ao momento — ela é rejeitada.

Aqui se revela uma lei fundamental: o impulso, por si só, não gera vida. Ele precisa encontrar um limite que o reconheça.

À primeira vista, o encargo da fêmea parece desproporcional. Enquanto o macho participa de forma breve no ato reprodutivo, ela assume o peso prolongado da gestação e da criação, expondo-se a riscos, limitações e exigências que comprometem sua própria segurança e conforto. Essa assimetria pode sugerir um desequilíbrio, como se a fêmea carregasse um fardo excessivo em relação ao ganho imediato que obtém.

Contudo, essa leitura se altera quando se abandona a perspectiva individual e se observa a lógica mais ampla que rege a vida. Na onça-pintada, como em grande parte das espécies, a reprodução não se orienta pela equidade entre os indivíduos, mas pela eficácia na continuidade da espécie. O que está em jogo não é a compensação imediata de esforços, mas a transmissão bem-sucedida de uma forma de vida no tempo.

Nesse contexto, a fêmea não é apenas participante do processo reprodutivo, mas seu eixo central. É nela que a vida se desenvolve, se organiza e se prepara para emergir no mundo. Seu investimento elevado não é um desvio da lógica natural, mas sua expressão mais profunda: a vida se perpetua justamente porque há um polo capaz de sustentar, proteger e conduzir o que ainda não pode fazê-lo por si.

Isso não significa passividade. Ao contrário, a fêmea exerce um papel seletivo fundamental: ela não apenas recebe, mas escolhe. Ao aceitar ou rejeitar o macho, filtra quais características terão continuidade, atuando como um princípio de discernimento biológico que antecede qualquer forma de consciência moral. O custo que assume é acompanhado de um poder silencioso de decisão, que regula, de forma indireta, a qualidade daquilo que se perpetua.

Assim, o que inicialmente se apresenta como um fardo revela-se como uma função estruturante. A aparente desvantagem individual converte-se em centralidade no processo da vida. A fêmea não recebe em conforto o que oferece em esforço, mas em permanência aquilo que entrega em si. É nela que a vida não apenas se inicia, mas se sustenta — e é por isso que seu papel, embora mais oneroso, é também o mais determinante.

Diferente do homem a onça não escolhe conter-se — ela simplesmente é contida por sua própria estrutura instintiva. Sua ordem é anterior à consciência. Macho e fêmea são impelidos a encarnarem seu papel na preservação e desenvolvimento da espécie. O homem, por sua vez, herda esses mesmos impulsos, mas não a mesma regulação automática. Nele, a força se apresenta como possibilidade aberta, não como destino fechado.

É dessa ruptura que nasce a liberdade.

A liberdade humana não consiste, portanto, na ausência de impulso, mas na capacidade de não ser governado exclusivamente por ele. Está em seu poder ceder ou não, ainda que a custa de muito esforço. Enquanto o animal está integrado à ordem natural, o homem é chamado a integrar-se numa ordem superior sofrendo os efeitos e responsabilidade de suas escolhas morais. Entre o impulso e a ação, abre-se o espaço da moralidade, do ser ético e racional, ou seja, sua liberdade de agência e livre-arbítrio. Em termos radicais e na linha de Jean- Paul Sartre, podemos dizer que o homem está condenado a ser livre. Ou seja, a fazer escolhas as quais o angustiam pois é chamado a responsabilidade de suas próprias escolhas, não podendo condenar um ser externo por suas próprias escolhas.

Assim, diferente dos animais irracionais, o homem e a mulher podem escolher ter ou não ter filhos. Submeter-se ou não ao conforto de uma vida centrada em seus instintos de proteção e segurança imediatos e não servir ao interesse da espécie. Pois, eles são livres.

Nessa linha de raciocínio a superação dos instintos acontece, portanto, por uma complexidade acrescentada pela natureza humana que do ponto de vista de sua força de vontade pode escolher entre ceder a seus instintos ou não, de acordo com a sua moralidade e racionalidade.

Na contemporaneidade, essa possibilidade de escolha se manifesta de forma concreta em múltiplas situações. Homens e mulheres podem, por razões legítimas e ponderadas, optar por não ter filhos: seja pela busca de estabilidade financeira antes de assumir responsabilidades parentais, pela dedicação intensa à formação acadêmica ou à carreira profissional, pela preocupação com o contexto social e ambiental em que uma criança seria inserida, ou ainda por vocações pessoais que se orientam para outros tipos de contribuição à sociedade. Há também aqueles que, diante de experiências familiares difíceis, preferem interromper determinados ciclos, ou que simplesmente não reconhecem em si o chamado para a parentalidade. Em todos esses casos, o que se evidencia não é a ausência de impulso, mas a capacidade de submetê-lo a critérios mais amplos — morais, racionais e existenciais — revelando que, no ser humano, a reprodução deixa de ser um imperativo instintivo e passa a integrar o campo da decisão consciente.

Essa decisão que corresponde a uma concatenação de uma série de fatores, biológicos, culturais e morais, torna complexa a decisão de procriação no gênero humano contemporâneo de modo que não podem ser orientados por questões unifatoriais como o instinto nas onças-pintadas, por exemplo. Essa situação traz uma pista de que a liberdade humana é ampla e não está em simplesmente seguir ou não qualquer impulso, mas em escolher a que ordem ele será submetido. Quais emergências interferem na agência do homem e da mulher, colocando-os não apenas sujeitos a forças incontroláveis, mas coordenadores de uma ampla gama de forças que os perpassa e os anima em busca de uma direção que não é inata.

É nesse movimento — da compulsão e organização da escolha, que a consciência se inaugura, mediante a dignidade propriamente humana.

Fundado na perspectiva da psicologia analítica[3] de Carl Gustav Jung[4], este ensaio propõe uma leitura arquetípica dessa dinâmica. Primeiro do estado pré- consciencial humano sintetizado no comportamento dos animais em especial da onça-pintada e posteriormente nos caminhos que o homem após conquistar sua esfera de domínio consciencial pode seguir, seja em sentido ascendente de mais consciência rumo ao que pode se denominar em termos junguianos de individuação, de divinização segundo a mística cristã ou em sentido descendente rumo a desintegração.

Nessa jornada chamaremos de harmonia pré-reflexiva (ou, na imagem tradicional, de onça-pintada) o estado em que o instinto opera de forma integrada. Nele, não há moralidade consciente, mas há medida. O impulso existe, a agressividade existe, o desejo existe — porém todos operam dentro de um campo de regulação que preserva a vida. É o equilíbrio anterior à cisão reflexiva do humano.

A partir dessa base, podem emergir dois polos fundamentais de desenvolvimento consciencial.

O primeiro, ascendente como princípio de Expansão, representa o movimento que se projeta, que busca, que inicia, que atravessa o limite em direção ao mundo. É a energia da exteriorização, da ação e da direção. Podemos simbolicamente atrelar esse princípio arquetipicamente a Adão, como primeiro homem e primeira unidade de consciência.

Adão, nesse contexto, não é apenas o início cronológico da humanidade, mas a representação do momento em que a consciência se ergue e passa a se relacionar ativamente com o mundo. É aquele que nomeia, que distingue, que organiza a realidade à sua volta, inaugurando o domínio simbólico sobre o caos indiferenciado. Nele, o impulso deixa de ser apenas reação e passa a ser direção: não mais simples resposta ao ambiente, mas iniciativa que estrutura o próprio ambiente.

Contudo, esse princípio de expansão carrega em si uma ambiguidade essencial. Ao mesmo tempo em que permite a construção, o conhecimento e a ordenação do mundo, também abre a possibilidade da ruptura, caso se desligue do limite que o orienta. Adão, portanto, representa não apenas o início da consciência, mas também o risco inerente à sua liberdade: o poder de agir para além da ordem que o sustenta.

É nesse ponto que a questão da dominância humana se revela em sua forma mais elevada. Diferente do animal, no qual a dominância se estabelece primariamente pela força e pela imposição, no homem ela se desloca para o campo da consciência. O verdadeiro domínio não é exercido sobre o outro, mas sobre si mesmo. Adão, enquanto princípio de expansão ordenada, não é aquele que simplesmente se impõe, mas aquele que governa sua própria força, orientando-a segundo uma medida que não se origina apenas nele, mas na ordem à qual está submetido.

Assim, a dominância, quando integrada, não se manifesta como agressividade ou imposição desmedida — formas degradadas da expansão —, mas como capacidade de sustentar uma ordem. É dominante aquele que, tendo consciência de seus impulsos, não é por eles arrastado, mas os conduz. A força permanece, mas já não é cega; ela se torna instrumento. A ação permanece, mas já não é dispersa; ela se torna direção.

Adão, portanto, não representa apenas o impulso que se projeta no mundo, mas a responsabilidade de conduzi-lo. Sua verdadeira autoridade nasce não da ausência de limites, mas da sua capacidade de reconhecer, aceitar e operar dentro deles. É nesse equilíbrio entre potência e medida que o princípio ascendente encontra sua forma plena — não como expansão desordenada, mas como expressão consciente de uma força que, ao invés de se perder, se alinha e se cumpre.

No polo feminino simbolizado pelo primeiro casal, temos o princípio de contenção fecunda (figurado em Eva) que representa o limite que acolhe, a interioridade que transforma, o espaço onde o impulso encontra forma e se converte em vida. Não se trata de mera passividade, mas de uma atividade interior — a capacidade de receber, discernir e gerar.

Quando esses dois princípios operam em correspondência, temos a estrutura simbólica da fecundidade: o impulso se orienta, e o limite se abre. Não há invasão, nem fechamento; há encontro. É nesse ponto que a vida — biológica, relacional e espiritual — se torna possível.

O homem e a mulher carregam o potencial divino, como filhos de Deus podem se integrar e se individuar ou decair e se desintegrar por efeito do pecado não redimido

Entretanto, esses arquétipos não são estáticos. Eles possuem um arco de desenvolvimento que pode conduzir tanto à integração quanto à dissociação.

Quando o Princípio de Expansão perde sua referência ao limite e se absolutiza, ele se transforma em expansão desordenada (figurada simbolicamente, segundo a tradição da mística judaica em Samael): o impulso sem medida, a força que invade, o movimento que não reconhece o outro.

Quando o Princípio de Contenção Fecunda se fecha sobre si mesmo, recusando a relação, ele degenera em contenção estéril (figurada simbolicamente, segundo também a tradição mística judaica em Lilith): o limite que já não acolhe, a interioridade que não transforma, o espaço que se converte em isolamento.

Temos, portanto, não personagens, mas estados possíveis da psique. O ser humano transita entre eles, podendo seguir a ordem de retorno ao lar de sua paternidade divina ou não.

Diferentemente da onça, cuja regulação se dá no plano instintivo, o homem é atravessado pela consciência. E é precisamente essa consciência que introduz tanto a possibilidade de integração quanto o risco da desordem. O homem carrega em si a mesma força instintiva que observa na natureza — mas, sem orientação, essa força pode fragmentar em loucura.

Surge, então, a necessidade de uma ordem que não apenas regule externamente, mas que integre interiormente.

É neste ponto que a submissão à Vontade de Deus deve ser compreendida com maior profundidade.

Ela não é mera obediência formal, nem simples contenção do comportamento. Trata-se de um processo de integração da própria natureza humana a uma ordem moral superior que a acolhe e a transforma. O homem, ao submeter-se, não é rejeitado por sua natureza instintiva; ao contrário, ele é aceito nela — porém chamado a ordená-la.

A submissão, nesse sentido, não é negação do instinto, mas sua redenção pela ordem.

Aqui entra o papel central do arrependimento.

O arrependimento não é apenas remorso, mas um movimento de retorno: a consciência reconhece sua desordem — sua inclinação à Expansão Desordenada ou à Contenção Estéril — e se realinha com a ordem superior. É um ato de reposicionamento do ser, no qual o indivíduo deixa de ser regido por si mesmo para se orientar por aquilo que o transcende.

Sem arrependimento, o arquétipo permanece dissociado e tendente ao que não lhe é dado fazer e ao exagero, o oposto da retidão. Com arrependimento, ele é reintegrado.

Nesse contexto, a obediência às leis divinas — inclusive à lei da castidade — revela sua função mais profunda. Ela não é um limite arbitrário, mas uma estrutura protetiva da consciência.

A lei estabelece fronteiras claras onde o instinto, por si só, não é capaz de se autorregular plenamente. Ao obedecer, o homem não apenas evita o erro externo, mas constrói internamente um espaço de ordem onde seus impulsos podem ser integrados sem destruí-lo.

A castidade, em particular, manifesta de forma evidente essa dinâmica. Ela orienta uma das forças mais potentes do ser humano — o impulso criador — impedindo que ele se disperse ou se degrade. Não se trata de supressão, mas de canalização desse poder criativo.

Assim, a obediência — quando acompanhada de entendimento — torna-se o limite consciente que protege o homem de si mesmo. Não como cárcere, mas como forma que organiza o projeto de Deus que é o homem.

E é nesse ponto que a submissão deixa de ser apenas dever e se torna relação.

Uma submissão amorosa à fonte do próprio ser.

O homem e a mulher, então, já não são conduzidos cegamente por seus impulsos, nem rigidamente fechados em si mesmos. Eles passam a habitar um espaço intermediário: consciente, ordenado, integrado. Sua força permanece, mas agora orientada. Seu limite permanece, mas agora fecundo.

É nesse ponto que a integração deixa de ser apenas um conceito e se torna experiência vivida. O homem já não oscila cegamente entre o excesso e a privação, nem se vê dividido entre impulsos que o arrastam e limites que o sufocam. Ao contrário, passa a habitar uma medida interior na qual sua força encontra direção e seu limite encontra sentido. O que antes se apresentava como conflito — entre desejo e contenção — revela-se, então, como possibilidade de ordem. E é nessa ordem assumida, não como imposição externa, mas como forma interiorizada, que o homem começa a reconciliar-se consigo mesmo e a tornar-se capaz de sustentar, em si, a unidade entre impulso e forma.

Entre a Harmonia pré-reflexiva da onça e a consciência humana, entre o instinto e o espírito, revela-se uma mesma lei — agora elevada: a vida não nasce da força isolada, nem do fechamento absoluto, mas da integração do impulso e do limite sob uma ordem que não apenas regula, mas acolhe, transforma e conduz o ser ao seu próprio fundamento.

 



[1] Na psicologia analítica, o arquétipo é uma estrutura simbólica universal do inconsciente coletivo, conforme formulado por Carl Gustav Jung. Trata-se de um padrão fundamental de experiência e comportamento que não é aprendido individualmente, mas herdado como possibilidade psíquica, manifestando-se em imagens, mitos, narrativas e atitudes recorrentes ao longo das culturas. Os arquétipos não possuem forma fixa, mas se expressam por meio de símbolos, orientando a percepção, a emoção e a ação humanas.

[2] Deivison de Paula Romualdo da Silva é advogado, mediador de conflitos e pesquisador independente das relações entre natureza humana, consciência e ordem moral. Pós-graduado em Direito Penal e Criminologia pela PUCRS e formado em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, atua na resolução de conflitos penais, familiares e socioeconômicos, com ênfase em mediação e pacificação social. Sua trajetória profissional, marcada pelo contato direto com situações de tensão humana, dialoga com sua produção intelectual, na qual integra elementos da psicologia analítica, da filosofia e da tradição espiritual na investigação da experiência humana.

[3] A psicologia analítica é a abordagem psicológica desenvolvida por Carl Gustav Jung, centrada no estudo da psique humana em sua dimensão consciente e inconsciente. Parte da ideia de que, além do inconsciente pessoal, existe um inconsciente coletivo composto por arquétipos — formas universais de experiência que se manifestam em símbolos, mitos e padrões de comportamento. Seu objetivo fundamental é o processo de individuação, pelo qual o indivíduo integra os diferentes aspectos de si mesmo, alcançando maior unidade e consciência.

[4] Carl Gustav Jung foi um dos principais pensadores da psicologia do século XX e fundador da psicologia analítica. Discípulo inicial de Freud, afastou-se de sua abordagem ao desenvolver conceitos próprios, como o inconsciente coletivo, os arquétipos e o processo de individuação. Sua obra busca compreender a psique humana em sua dimensão simbólica, integrando elementos da mitologia, religião e cultura como expressões universais da experiência interior.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

 No dia 7 de agosto de 2025, por volta das 06 horas da manhã vi Vênus,  mais ao alto e brilhante e Júpiter, mais ao longe, aparentemente menor e menos brilhante. Fiquei mto tocado pois nunca havia visto esses astros juntos em um momento de completo silêncio e meditação. Foi mágico. Pude sentir um pouco amor de Deus por todos nós, que caprichosamente permitiu que eu testemunhasse essa dança no céu. Só havia lido sobre esses astros visíveis em algumas manhãs,  mas nunca tinha os visto com meus próprio olhos. Sou muito grato e presto testemunho de que os astros não são meros enfeites e suas órbitas foram desenhadas pelo próprio Deus. Digo estas coisas em nome de Jesus Cristo. Amém.






Jardineiro Fiel

 Oh, que belo jardim que meu Senhor nos plantaste.

Tantos aromas e cores que aos sentidos inebria.

Será que sou eu assim tão bela quanto aquele Girassol que vejo lá no alto?

Quisera eu ver as coisas como são, o desenvolver das sementes e o campo ainda selvagem.

Pois assim teria visto aquela bela flor que tardou a abrir, cujo despertar teria inspirado tantas outras anteriormente.

Quantas vezes Ele, o Paisagista, deve ter se sentido frustrado com aquela rosa que teimava em não compartilhar sua beleza?

Quanto amor dedicou a sua obra, podando, nutrindo, fortalecendo e, ainda sim, sem que ela desabrochasse e dividisse com Ele, o Criador, a alegria da sua plena estatura.

Tu, nosso Jardineiro Fiel, sabes que uma flor não se abre por desejo ou exercício da autoridade. 

Nem mesmo por amor dedicado, mas  pela chegada do tempo que não tarda da primavera.

Esse amor, em verdade, não serve para substituir o tempo, mas para tornar a espera agradável. 

A amante que suspira com os cuidados que demanda o casamento, antes mesmo de conhecer o noivo. 

Ao escolher amar a flor ainda fechada e de espinhos a amostra, eu, aquela que fui também plantada, me assemelho ao Jardineiro criador desse campo e com Ele comungo eternamente.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Minha visão sobre a maternidade e o Reino de Deus

 

Qualquer coisa que a nossa mãe for capaz de fazer contra nós por ignorância e desconhecimento da verdade da vida, não chega nem ao menos próximo daquilo que ela nos deu, que é a vida como a conhecemos. Com toda dificuldade precisamos ter isso em mente e saber que ela colocou seu corpo em risco por nós, que abdicou do seu conforto e deixou de fazer outras coisas que queria e tinha direito de fazer para preparar a nossa gestação e aprendizado. Ela será sempre nossa credora, não importa o que ela tenha feito contra nós sem saber. O perdão é uma das chaves para o Reino de Deus e uma outra, certamente, é a gratidão.

terça-feira, 17 de setembro de 2024

In serving each other we became free


 A prestação de serviços jurídicos de forma humanista é a paixão da equipe que põe o foco de sua atuação nas pessoas beneficiárias dos trabalhos desenvolvidos. 

Trata-se da marca da equipe que vê o fenômeno jurídico como um bloco que se relaciona com agentes os quais precisam de profissionais altamente capacitados para não só proporem soluções para os problemas que enfrentam, mas agirem na natureza do conflito. 

Com base nessa filosofia prática substitui-se nomenclaturas clássicas que não fazem jus a dinâmica atuação do escritório, como direito penal, direito de família e direito trabalhista, para em seu lugar estabelecer eixos principais de atuação, como, por exemplo a) relações conflituosas com a lei penal, b) relações conflituosas no âmbito doméstico e c) relações conflituosas no sistema produtivo,

Por meio destes três centro dinâmicos o escritório, capitaneado por seu fundador Deivison de Paula, busca atender seus clientes, não como simples consumidores de um serviço advocatício, mas como seres humanos que se encontram face a problemas cuja solução não pode ser limitada ao conhecimento abstrato ministrado por algumas poucas matérias no currículo de uma universidade de direito qualquer, como se não dependessem, em verdade, de toda a experiência e o conhecimento represados durante uma vida dedicada a solução dos conflitos.

Em resumo as soluções que se oferecem não se limitam a expressão jurídica dos problemas manifestados, ao contrário, extrapolam para o esclarecimento a respeito da causa de padrões que se repetem e podem, havendo energia, serem com o tempo superados com paciência, entendimento e compreensão. Por essa razão mesma faz sentido se falar em centro, eixo, vetor ou nó, tomando emprestado estes termos das ciências exatas, uma vez que se trata de um ponto focal onde uma série de conhecimentos são depositados, os quais de maneira alguma podem ser limitados a uma matéria no currículo padrão do bacharel em direito.

Essa visão permite que os profissionais do escritório busquem a partir do conhecimento que possuem entender os clientes e seus interlocutores a fim de agirem na cura das relações conflituosas, extrapolando, portanto, a organização tradicional do direito e avançando para a elucidação dos mistérios das intrincadas relações humanas, já que a dimensão jurídica é, e sempre foi, mero efeito do que se é e se tem, seja nos negócios, na vida doméstica, nas relações sociais.

Para tanto conceitos trabalhados por diversas tradições são utilizados para ajudar os clientes a organizarem suas vidas e se defrontarem com verdades fundamentais as quais quando negligenciadas se expressam, quase invariavelmente, em conflito com a legislação penal, com as pessoas da família e aquelas que estão em seu ambiente profissional. Esses conflitos podem e invariavelmente culminam em disputas judiciais e ainda maiores sofrimentos—o oposto do que se procura com a atuação na cura das relações.

Essa atuação humanista, como não poderia deixar de ser, abarca o saber técnico e a funcionalidade das leis do Estado e dos entes federados e avança para o tratamento do ser transpessoal que, agregado a família, é o foco, a razão de existência das leis da sociedade, onde o profissional pode encontrar sua atuação em favor do serviço ao outro, numa relação que, crê-se, não é regulada por questões outras que não o serviço em favor das corretas relações humanas.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

RigVeda X.71

 "Brhaspati! Quando eles [os poetas-videntes] acionaram os primórdios da linguagem, nomeando [as coisas], o amor revelou seu segredo mais puro e bem guardado. Quando os sábios moldaram a linguagem com suas mentes, peneirando-a como grãos numa peneira, então os iguais perceberam suas semelhanças. Um bom augúrio foi revelado em suas falas. Através do sacrifício eles traçaram o caminho da linguagem e o encontraram nos sábios. Eles o mantiveram e depois o distribuíram a muitos. Juntos os sete cantores o louvaram. Um que olhava não via a linguagem, e outro que escutava não a ouvia, pois ela se revela para alguém como uma amante, adornada, revela seu corpo ao amante. Disseram que alguém se tornou bisonho e embotado em sua amizade. Eles não mais o deixam representá-los nas justas poéticas. Ele vive de engodo, como uma vaca sem leite, pois sua fala não gera nem flor nem fruto. Um homem que abandona um colega de profissão não mais partilha da linguagem. O que ele ouve é em vão, pois ele não mais reconhece a senda justa. Amigos possuem olhos e ouvidos, mas seus entendimentos não são iguais. Alguns são como tanques que só vão até os ombros ou bocas, outros são como tanques em que se pode banhar-se. Quando as intuições da mente são moldadas no coração, quando brâmanes sacrificam juntos como amigos, alguns são deixados de fora por falta de conhecimento, já que outros os superam com o poder de suas louvações. Aqueles que não viajam para perto ou longe, que não são verdadeiros brâmanes nem bebedores de soma, usando mal a linguagem, sem conhecimento, bordam [somente] uma tela de andrajos. Todos os amigos se alegram com o amigo que emerge com fama e vitória do torneio poético. Ele os salva da derrota e os alimenta. Ele é digno de despontar e receber o prêmio. Aquele fica sentado fazendo a flor da poesia florescer. Outro canta uma canção na medida certa. Um, o brâmane, proclama o conhecimento dos sendeiros antigos, [enquanto] outro deita as medidas do sacrifício."  RigVeda X.71 Trad. Clodomir Barros de Andrade.


 Brhaspate prathamam vaco agrah yat prairata namadheyaḥ dadhanah / yadesaM sResthaM yadaripramasitprena tadesaM nihitam guhavith // Saktumiva titauna punanto yatra dhira mansa vacamakrata / atra sakhayani janato badraisaM laksminirhitadhi vaci // Yajnena vacah padaviyamayantamanvavindannRsisu pravistham / tamabhRtya vyadadhuh purutrataM sapta rebha abhi saMnavante // Uta tvah paśayanna dadarśa vacamuta tvah śRnavanna śRnotyenam / uto tvasmai tanvaM vi sasme jayeva patya uśati suvasah // Uta tvaM sakhye sthirapitamahur nainaM hinvantyapi vajinesu / adhenva carati mayayaisa vacam suśruvaM aphalamapuspam // Yastityaja sacividaM sakhrayaM na tasya vacyapi bhago asti / yadiM śRnotyalakaM śRnoti nahi praveda sukRtasya panthM // Aksanvantah karnavantah sakhayo manojavesvasama babhutuh / adaghrasa upakakśasa u tve hRdaiva snatva u tve tadRsre // HRda tastesu manaso javesu yad brahmanah saMyajante sakhayah / atraha tvaM vi jahurvedyabhirohabrahmano i carantyu tve // Ime ye narvadna paraścaranti na na brahmanaso na sutekarasah / ta ete vacamahipadya papaya siristantraM tanvate aprajajñayah // Sarve nandanti yaśasagatena sabhasahena sakhya sakhayah / kilvisaspRtpitusanirhyesamaraM hito bhavati vajinaya // RcaM tvah posamaste pupusvangayatrain tvo gayatiśakvarisu / brahma tvo vadati jatavidyaM yajnasya matraM vi mimita u tvaM //. RigVeda X. 71

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

O homem que falava politiquês

 

O homem que falava politiquês


Saibam vocês que o Brasil não é para amadores, nem a vida. Vejam só, um dia desses estava passeando num parque com meu filhinho, quando a esmo, deleitando-nos com o tempo, nos vimos abrigados a sombra de algumas árvores, paramos. Passei a vê-lo brincar com algumas mesas dessas pequenas feitas para crianças e deparei-me com uma série de livros a disposição, a la carte. Era uma biblioteca a céu aberto no parque. Escolhi para ler para ele uma adaptação com ilustrações do conto escrito por Lima Barreto, chamado o “homem que sabia javanês”. A despeito de meus esforços, rapidamente o piá inquietou-se, afinal esse tipo de leitura não é propriamente para sua idade. Sua atenção se perdeu, como de se esperar, por entre as diversas atrações do parque: a terra, a luz, o sol, etc. Preferiu brincar com a natureza nos bancos e jogar pedras ao invés de ouvir a minha interpretação daquela estória maravilhosa.


Já eu fiquei fascinado pela lembrança daquele livro lido na minha juventude já distante. Um trabalho lindo de ilustração e adaptação. Parei de ler exclusivamente por causa dos puxões e ameaças de choro, que estavam prestes a se concretizar, caso não fossemos imediatamente para outro lugar no parque. Por mim mesmo estaria até agora dentro daquele livro. Negociei com o Gael o máximo que pude, retardei para que continuasse em meu interesse saboreando aquela estória, mas não deu certo por muito tempo, fui lendo o mais rápido que pude, enquanto entre um pulo e outro ele redobrava suas ameaças de cair no choro. Não aguentei e cedi, como quase sempre.


O mais intrigante da estória relatada no livro(que só pude terminar mais tarde sozinho em casa) é a semelhança com o Brasil e sua miséria atual. Alias nada mais atual por aqui do que o tal homem que falava javanês, um bacharel em direito, como eu e muitos dos coachs por aí. Era, na estória, um malandro que precisava sobreviver e decidiu para tal se candidatar para uma vaga de professor de javanês, sem que soubesse coisa alguma da língua. Ou melhor sem que soubesse nada substancial da língua. Conseguiu o cargo de professor de um homem muito nobre e bondoso, simplesmente por saber mais do que os outros. Fácil né. Decorou meia dúzia de palavras que encontrou em um dicionário, contou uma mentira sobre como tinha aprendido a falar a língua e isso foi o suficiente para ludibriar o crédulo e ignorante homem e ganhar o cargo de seu amado professor.


Essa esperteza lhe garantiu a fama de falante de uma língua exótica e a possibilidade de galgar cargos na administração pública. Vejam só, na estória, aquela do Lima Barreto, no tempo inicial da República saudosa do Império, ele chegou a ser diplomata do Brasil em África. Em São Paulo, por outro lado, um desses que se metem a saber de tudo está prestes a ganhar a Prefeitura de São Paulo. Muito fácil e simples, né.


Nenhuma antipatia pelo moço, esse candidato real de São Paulo, ao contrário. Ele é fruto de nossa sociabilidade, tem sua graça e necessidade. Conheço alguns do tipo que andam por aqui e ali e vejo nele os mesmíssimos vícios tão ordinários que espuma as bocas da humanidade atual. Afinal, quem de nós pode se dizer livre desses problemas tão comezinhos do espírito. Fácil vê-los nele não em nós. Atirem a primeira pedra quem não saboreia pelo menos um pouco essas nossas vilanias. Ninguém, né. Se a admoestação fosse alterada para vote em fulano quem nunca desejou ficar rico sem trabalho sério, da noite para o dia. A eleição estaria nesse caso garantida em seu favor, teríamos assim um vencedor já no primeiro turno. Duvidam? A multidão procura um mais alto cuja voz a guie. Pronto. Eis aí o profeta que o povo construiu a sua imagem.


Por falar em profeta este até abençoa pessoas paralíticas, porém a despeito de suas vontades, do paralítico e do pretenso curador, elas não andam. Talvez tenha faltado inspiração para o profeta ou humildade. Seu canto sedutor perfumado por uma retórica de prosperidade aponta para a superação das carências materiais tão comuns em nosso povo. Se ele ajuda nisso só pode ser um enviado de Deus e, por isso, nele vou votar para a solução do problema político. Será?


Será que o problema da carência de recursos é o problema em si e não o pecado que corroê as bases de nossa humanidade, que nos faz esquecer a função do dinheiro em nossa vida e a própria razão de se viver. A tentação que o Diabo fez ao nosso Salvador no deserto, pelo que me parece, anda nessa linha. Darei-lhe toda glória e riqueza do mundo. Sabemos que o Mestre negou, pois sabia com quem seu amor e fidelidade estava, já o candidato é de se verificar. Demos tempo ao tempo, a eternidade garante aprendizado infinito. Vi de sua boca em um podcast em que ele afirma ter aviões e helicópteros e de certo concluo que esses veículos não são sinal de uma vida abnegada. Ele quer curar como Cristo, sua glória, mas não sua renúncia. Nesse mesmo programa citou como ora faço parte das escrituras sagradas, se palavras túmulo do espírito ou vivas, não posso dizer. O que sei é da contradição e a possível disrruptura que alguém que estressa os limites do mundo político, econômico e religioso pode representar. Torcesse eu para o circo pegar fogo queria vê-lo eleito, porém o nível de confusão que uma pessoa cujo patrimônio parece ter se materializado por efeito de uma obra alquímica dentro do cenário degenerado da política faz-me desconfiar de suas associações e simplificações. 


Acompanhemos o resultado das eleições paulistana e oremos para que os aprendizados sejam feitos a contendo. Os do povo, os do candidato e os desse escrevinhador que pasta para entender o óbvio e para não julgar como deve.