Entre Instinto, Arquétipo[1]
e Ordem: A Regulação do Impulso da Natureza à Alma e ao Espírito
Deivison de Paula[2]
A observação atenta da natureza e seus movimentos revela que, por trás
da aparente brutalidade dos instintos, há uma ordem silenciosa e rigorosa que
regula as espécies e permite o encontro que gera o florescimento da vida. A
onça-pintada, por exemplo, representante dos grandes felinos, predadora
solitária das Américas, encarna com precisão a presente reflexão entre impulso
de vida e sua regulação própria numa camada anterior a consciência humana e sua
liberdade.
Cada espécie possui um equilíbrio entre si no ambiente, o que traz rico
material de análise e percepção a respeito da complexidade da vida à luz do
simbolismo arquetípico e da psicologia analítica. Nessa dimensão estritamente animal, o
impulso, como veremos, não é caótico, mas regulado por um equilíbrio interno
que prescinde de reflexão: a força se exerce dentro de limites que a própria
natureza impõe.
A onça-pintada, predadora solitária das Américas, vive segundo um padrão
de comportamento marcado por precisão e economia. Territorialista, delimita e
percorre seu espaço com rigor, evitando confrontos desnecessários e preservando
energia. Caça por emboscada, aproximando-se em silêncio até o momento exato do
ataque, no qual emprega força concentrada e decisiva. Alimenta-se de forma
oportunista, adaptando-se às presas disponíveis, e demonstra notável relação
com o ambiente, sendo capaz de nadar e explorar tanto a terra quanto a água.
Seus ciclos de atividade seguem ritmos naturais, alternando períodos de
movimento e repouso de acordo com as condições do meio. Mesmo nos momentos
reprodutivos, sua aproximação não é caótica, mas regulada por sinais
específicos que coordenam encontro, aceitação e afastamento.
Do ponto de vista especulativo, o acasalamento da onça-pintada, aspecto
em que pretendemos nos concentrar, pode ser compreendido como expressão de uma
lógica mais profunda que transcende o indivíduo isolado. A fêmea, ao aceitar o
encontro com o macho, não o faz em função de uma vantagem imediata — ao
contrário, ela se expõe a um período de maior vulnerabilidade, no qual sua
mobilidade é reduzida e sua atenção se divide entre a própria sobrevivência e a
proteção dos filhotes, sem qualquer auxílio do macho. Ainda assim, ela se
submete a esse ciclo. Isso sugere que o impulso reprodutivo não está orientado
pela preservação do indivíduo em si, mas pela continuidade da vida enquanto
ordem maior. A fêmea, por assim dizer, “cede” momentaneamente sua autonomia
plena em favor de algo que a ultrapassa: a transmissão de um padrão, de uma
linhagem, de uma forma de existir no mundo. O risco que assume não é
irracional, mas inscrito em uma lógica na qual a vida se perpetua precisamente
porque indivíduos aceitam, por instinto, participar de algo que excede seus
próprios limites imediatos.
O princípio de expansão, mais evidente no macho da onça-pintada,
impele-o a ultrapassar, em certos momentos, os limites ordinários de seu
território, lançando-se em busca de uma fêmea. Esse movimento não é contínuo,
mas intensificado quando sinais específicos indicam a possibilidade de
encontro. A fêmea, por sua vez, em períodos determinados — o cio — suspende
momentaneamente sua agressividade territorial, permitindo a aproximação e o
acasalamento. Nesse instante, estabelece-se uma convergência rara entre expansão
e receptividade: o macho cobre e a fêmea o recebe e, a partir daí ela assume
integralmente o encargo da gestação e da criação. O que se segue, contudo, não
é um benefício imediato para ela, nem para ele, mas um ciclo de maior
vulnerabilidade, no caso dela e uma maior competição futura, no caso dele.
Ainda assim, o casal eventual persiste. Tal dinâmica revela que a lógica que
sustenta esse comportamento da espécie não se orienta pelo interesse individual
imediato, mas pela continuidade da espécie — uma ordem na qual o risco assumido
pela fêmea se converte em possibilidade de permanência da vida.
No plano biológico, esse encontro é regulado por mecanismos hormonais
sofisticados. A fêmea entra em cio por ação de ciclos hormonais que a tornam
receptiva, alterando sua tolerância e comportamento. O macho, ao detectar esses
sinais, entra em um estado de excitação fisiológica — uma prontidão que o
impele à aproximação. Contudo, essa aproximação não é eficaz pela intensidade,
mas pela sintonia. Quando desajustada — seja por insistência excessiva, seja
por inadequação ao momento — ela é rejeitada.
Aqui se revela uma lei fundamental: o impulso, por si só, não gera vida.
Ele precisa encontrar um limite que o reconheça.
À primeira vista, o encargo da fêmea parece desproporcional. Enquanto o
macho participa de forma breve no ato reprodutivo, ela assume o peso prolongado
da gestação e da criação, expondo-se a riscos, limitações e exigências que
comprometem sua própria segurança e conforto. Essa assimetria pode sugerir um
desequilíbrio, como se a fêmea carregasse um fardo excessivo em relação ao
ganho imediato que obtém.
Contudo, essa leitura se altera quando se abandona a perspectiva
individual e se observa a lógica mais ampla que rege a vida. Na onça-pintada,
como em grande parte das espécies, a reprodução não se orienta pela equidade
entre os indivíduos, mas pela eficácia na continuidade da espécie. O que está
em jogo não é a compensação imediata de esforços, mas a transmissão
bem-sucedida de uma forma de vida no tempo.
Nesse contexto, a fêmea não é apenas participante do processo
reprodutivo, mas seu eixo central. É nela que a vida se desenvolve, se organiza
e se prepara para emergir no mundo. Seu investimento elevado não é um desvio da
lógica natural, mas sua expressão mais profunda: a vida se perpetua justamente
porque há um polo capaz de sustentar, proteger e conduzir o que ainda não pode
fazê-lo por si.
Isso não significa passividade. Ao contrário, a fêmea exerce um papel
seletivo fundamental: ela não apenas recebe, mas escolhe. Ao aceitar ou
rejeitar o macho, filtra quais características terão continuidade, atuando como
um princípio de discernimento biológico que antecede qualquer forma de
consciência moral. O custo que assume é acompanhado de um poder silencioso de
decisão, que regula, de forma indireta, a qualidade daquilo que se perpetua.
Assim, o que inicialmente se apresenta como um fardo revela-se como uma
função estruturante. A aparente desvantagem individual converte-se em
centralidade no processo da vida. A fêmea não recebe em conforto o que oferece
em esforço, mas em permanência aquilo que entrega em si. É nela que a vida não
apenas se inicia, mas se sustenta — e é por isso que seu papel, embora mais
oneroso, é também o mais determinante.
Diferente do homem a onça não escolhe conter-se — ela simplesmente é
contida por sua própria estrutura instintiva. Sua ordem é anterior à
consciência. Macho e fêmea são impelidos a encarnarem seu papel na preservação
e desenvolvimento da espécie. O homem, por sua vez, herda esses mesmos
impulsos, mas não a mesma regulação automática. Nele, a força se apresenta como
possibilidade aberta, não como destino fechado.
É dessa ruptura que nasce a liberdade.
A liberdade humana não consiste, portanto, na ausência de impulso, mas
na capacidade de não ser governado exclusivamente por ele. Está em seu poder
ceder ou não, ainda que a custa de muito esforço. Enquanto o animal está
integrado à ordem natural, o homem é chamado a integrar-se numa ordem superior
sofrendo os efeitos e responsabilidade de suas escolhas morais. Entre o impulso
e a ação, abre-se o espaço da moralidade, do ser ético e racional, ou seja, sua
liberdade de agência e livre-arbítrio. Em termos radicais e na linha de Jean-
Paul Sartre, podemos dizer que o homem está condenado a ser livre. Ou seja, a
fazer escolhas as quais o angustiam pois é chamado a responsabilidade de suas próprias
escolhas, não podendo condenar um ser externo por suas próprias escolhas.
Assim, diferente dos animais irracionais, o homem e a mulher podem
escolher ter ou não ter filhos. Submeter-se ou não ao conforto de uma vida
centrada em seus instintos de proteção e segurança imediatos e não servir ao
interesse da espécie. Pois, eles são livres.
Nessa linha de raciocínio a superação dos instintos acontece, portanto, por
uma complexidade acrescentada pela natureza humana que do ponto de vista de sua
força de vontade pode escolher entre ceder a seus instintos ou não, de acordo
com a sua moralidade e racionalidade.
Na contemporaneidade, essa possibilidade de escolha se manifesta de
forma concreta em múltiplas situações. Homens e mulheres podem, por razões
legítimas e ponderadas, optar por não ter filhos: seja pela busca de
estabilidade financeira antes de assumir responsabilidades parentais, pela
dedicação intensa à formação acadêmica ou à carreira profissional, pela
preocupação com o contexto social e ambiental em que uma criança seria
inserida, ou ainda por vocações pessoais que se orientam para outros tipos de contribuição
à sociedade. Há também aqueles que, diante de experiências familiares difíceis,
preferem interromper determinados ciclos, ou que simplesmente não reconhecem em
si o chamado para a parentalidade. Em todos esses casos, o que se evidencia não
é a ausência de impulso, mas a capacidade de submetê-lo a critérios mais amplos
— morais, racionais e existenciais — revelando que, no ser humano, a reprodução
deixa de ser um imperativo instintivo e passa a integrar o campo da decisão
consciente.
Essa decisão que corresponde a uma concatenação de uma série de fatores,
biológicos, culturais e morais, torna complexa a decisão de procriação no
gênero humano contemporâneo de modo que não podem ser orientados por questões
unifatoriais como o instinto nas onças-pintadas, por exemplo. Essa situação
traz uma pista de que a liberdade humana é ampla e não está em simplesmente seguir
ou não qualquer impulso, mas em escolher a que ordem ele será submetido. Quais
emergências interferem na agência do homem e da mulher, colocando-os não apenas
sujeitos a forças incontroláveis, mas coordenadores de uma ampla gama de forças
que os perpassa e os anima em busca de uma direção que não é inata.
É nesse movimento — da compulsão e organização da escolha, que a consciência
se inaugura, mediante a dignidade propriamente humana.
Fundado na perspectiva da psicologia analítica[3] de
Carl Gustav Jung[4],
este ensaio propõe uma leitura arquetípica dessa dinâmica. Primeiro do estado
pré- consciencial humano sintetizado no comportamento dos animais em especial
da onça-pintada e posteriormente nos caminhos que o homem após conquistar sua
esfera de domínio consciencial pode seguir, seja em sentido ascendente de mais
consciência rumo ao que pode se denominar em termos junguianos de individuação,
de divinização segundo a mística cristã ou em sentido descendente rumo a
desintegração.
Nessa jornada chamaremos de harmonia pré-reflexiva (ou, na
imagem tradicional, de onça-pintada) o estado em que o instinto opera de
forma integrada. Nele, não há moralidade consciente, mas há medida. O impulso
existe, a agressividade existe, o desejo existe — porém todos operam dentro de
um campo de regulação que preserva a vida. É o equilíbrio anterior à cisão
reflexiva do humano.
A partir dessa base, podem emergir dois polos fundamentais de
desenvolvimento consciencial.
O primeiro, ascendente como princípio de Expansão, representa o
movimento que se projeta, que busca, que inicia, que atravessa o limite em
direção ao mundo. É a energia da exteriorização, da ação e da direção. Podemos
simbolicamente atrelar esse princípio arquetipicamente a Adão, como primeiro
homem e primeira unidade de consciência.
Adão, nesse contexto, não é apenas o início cronológico da humanidade,
mas a representação do momento em que a consciência se ergue e passa a se
relacionar ativamente com o mundo. É aquele que nomeia, que distingue, que
organiza a realidade à sua volta, inaugurando o domínio simbólico sobre o caos
indiferenciado. Nele, o impulso deixa de ser apenas reação e passa a ser
direção: não mais simples resposta ao ambiente, mas iniciativa que estrutura o
próprio ambiente.
Contudo, esse princípio de expansão carrega em si uma ambiguidade
essencial. Ao mesmo tempo em que permite a construção, o conhecimento e a
ordenação do mundo, também abre a possibilidade da ruptura, caso se desligue do
limite que o orienta. Adão, portanto, representa não apenas o início da
consciência, mas também o risco inerente à sua liberdade: o poder de agir para
além da ordem que o sustenta.
É nesse ponto que a questão da dominância humana se revela em sua forma
mais elevada. Diferente do animal, no qual a dominância se estabelece
primariamente pela força e pela imposição, no homem ela se desloca para o campo
da consciência. O verdadeiro domínio não é exercido sobre o outro, mas sobre si
mesmo. Adão, enquanto princípio de expansão ordenada, não é aquele que
simplesmente se impõe, mas aquele que governa sua própria força, orientando-a
segundo uma medida que não se origina apenas nele, mas na ordem à qual está
submetido.
Assim, a dominância, quando integrada, não se manifesta como
agressividade ou imposição desmedida — formas degradadas da expansão —, mas
como capacidade de sustentar uma ordem. É dominante aquele que, tendo
consciência de seus impulsos, não é por eles arrastado, mas os conduz. A força
permanece, mas já não é cega; ela se torna instrumento. A ação permanece, mas
já não é dispersa; ela se torna direção.
Adão, portanto, não representa apenas o impulso que se projeta no mundo,
mas a responsabilidade de conduzi-lo. Sua verdadeira autoridade nasce não da
ausência de limites, mas da sua capacidade de reconhecer, aceitar e operar
dentro deles. É nesse equilíbrio entre potência e medida que o princípio
ascendente encontra sua forma plena — não como expansão desordenada, mas como
expressão consciente de uma força que, ao invés de se perder, se alinha e se
cumpre.
No polo feminino simbolizado pelo primeiro casal, temos o princípio
de contenção fecunda (figurado em Eva) que representa o limite que acolhe,
a interioridade que transforma, o espaço onde o impulso encontra forma e se
converte em vida. Não se trata de mera passividade, mas de uma atividade
interior — a capacidade de receber, discernir e gerar.
Quando esses dois princípios operam em correspondência, temos a
estrutura simbólica da fecundidade: o impulso se orienta, e o limite se abre.
Não há invasão, nem fechamento; há encontro. É nesse ponto que a vida —
biológica, relacional e espiritual — se torna possível.
O homem e a mulher carregam o potencial divino, como filhos de Deus
podem se integrar e se individuar ou decair e se desintegrar por efeito do
pecado não redimido
Entretanto, esses arquétipos não são estáticos. Eles possuem um arco de
desenvolvimento que pode conduzir tanto à integração quanto à dissociação.
Quando o Princípio de Expansão perde sua referência ao limite e se
absolutiza, ele se transforma em expansão desordenada (figurada
simbolicamente, segundo a tradição da mística judaica em Samael): o
impulso sem medida, a força que invade, o movimento que não reconhece o outro.
Quando o Princípio de Contenção Fecunda se fecha sobre si mesmo,
recusando a relação, ele degenera em contenção estéril (figurada
simbolicamente, segundo também a tradição mística judaica em Lilith): o
limite que já não acolhe, a interioridade que não transforma, o espaço que se
converte em isolamento.
Temos, portanto, não personagens, mas estados possíveis da psique. O ser
humano transita entre eles, podendo seguir a ordem de retorno ao lar de sua
paternidade divina ou não.
Diferentemente da onça, cuja regulação se dá no plano instintivo, o
homem é atravessado pela consciência. E é precisamente essa consciência que
introduz tanto a possibilidade de integração quanto o risco da desordem. O
homem carrega em si a mesma força instintiva que observa na natureza — mas, sem
orientação, essa força pode fragmentar em loucura.
Surge, então, a necessidade de uma ordem que não apenas regule
externamente, mas que integre interiormente.
É neste ponto que a submissão à Vontade de Deus deve ser compreendida
com maior profundidade.
Ela não é mera obediência formal, nem simples contenção do
comportamento. Trata-se de um processo de integração da própria natureza
humana a uma ordem moral superior que a acolhe e a transforma. O homem, ao
submeter-se, não é rejeitado por sua natureza instintiva; ao contrário, ele é
aceito nela — porém chamado a ordená-la.
A submissão, nesse sentido, não é negação do instinto, mas sua redenção
pela ordem.
Aqui entra o papel central do arrependimento.
O arrependimento não é apenas remorso, mas um movimento de retorno: a
consciência reconhece sua desordem — sua inclinação à Expansão Desordenada ou à
Contenção Estéril — e se realinha com a ordem superior. É um ato de
reposicionamento do ser, no qual o indivíduo deixa de ser regido por si mesmo
para se orientar por aquilo que o transcende.
Sem arrependimento, o arquétipo permanece dissociado e tendente ao que
não lhe é dado fazer e ao exagero, o oposto da retidão. Com arrependimento, ele
é reintegrado.
Nesse contexto, a obediência às leis divinas — inclusive à lei da
castidade — revela sua função mais profunda. Ela não é um limite arbitrário,
mas uma estrutura protetiva da consciência.
A lei estabelece fronteiras claras onde o instinto, por si só, não é
capaz de se autorregular plenamente. Ao obedecer, o homem não apenas evita o
erro externo, mas constrói internamente um espaço de ordem onde seus impulsos
podem ser integrados sem destruí-lo.
A castidade, em particular, manifesta de forma evidente essa dinâmica.
Ela orienta uma das forças mais potentes do ser humano — o impulso criador —
impedindo que ele se disperse ou se degrade. Não se trata de supressão, mas de
canalização desse poder criativo.
Assim, a obediência — quando acompanhada de entendimento — torna-se o
limite consciente que protege o homem de si mesmo. Não como cárcere, mas como
forma que organiza o projeto de Deus que é o homem.
E é nesse ponto que a submissão deixa de ser apenas dever e se torna
relação.
Uma submissão amorosa à fonte do próprio ser.
O homem e a mulher, então, já não são conduzidos cegamente por seus
impulsos, nem rigidamente fechados em si mesmos. Eles passam a habitar um
espaço intermediário: consciente, ordenado, integrado. Sua força permanece, mas
agora orientada. Seu limite permanece, mas agora fecundo.
É nesse ponto que a integração deixa de ser apenas um conceito e se
torna experiência vivida. O homem já não oscila cegamente entre o excesso e a
privação, nem se vê dividido entre impulsos que o arrastam e limites que o
sufocam. Ao contrário, passa a habitar uma medida interior na qual sua força
encontra direção e seu limite encontra sentido. O que antes se apresentava como
conflito — entre desejo e contenção — revela-se, então, como possibilidade de
ordem. E é nessa ordem assumida, não como imposição externa, mas como forma
interiorizada, que o homem começa a reconciliar-se consigo mesmo e a tornar-se
capaz de sustentar, em si, a unidade entre impulso e forma.
Entre a Harmonia pré-reflexiva da onça e a consciência humana, entre o
instinto e o espírito, revela-se uma mesma lei — agora elevada: a vida não
nasce da força isolada, nem do fechamento absoluto, mas da integração do
impulso e do limite sob uma ordem que não apenas regula, mas acolhe, transforma
e conduz o ser ao seu próprio fundamento.
[1] Na psicologia analítica, o
arquétipo é uma estrutura simbólica universal do inconsciente coletivo,
conforme formulado por Carl Gustav Jung. Trata-se de um padrão fundamental de experiência
e comportamento que não é aprendido individualmente, mas herdado como
possibilidade psíquica, manifestando-se em imagens, mitos, narrativas e
atitudes recorrentes ao longo das culturas. Os arquétipos não possuem forma
fixa, mas se expressam por meio de símbolos, orientando a percepção, a emoção e
a ação humanas.
[2]
Deivison de Paula Romualdo da Silva é advogado, mediador de conflitos e
pesquisador independente das relações entre natureza humana, consciência e
ordem moral. Pós-graduado em Direito Penal e Criminologia pela PUCRS e formado
em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, atua na resolução de
conflitos penais, familiares e socioeconômicos, com ênfase em mediação e
pacificação social. Sua trajetória profissional, marcada pelo contato direto
com situações de tensão humana, dialoga com sua produção intelectual, na qual
integra elementos da psicologia analítica, da filosofia e da tradição
espiritual na investigação da experiência humana.
[3]
A psicologia analítica é a abordagem psicológica desenvolvida por Carl Gustav
Jung, centrada no estudo da psique humana em sua dimensão consciente e
inconsciente. Parte da ideia de que, além do inconsciente pessoal, existe um
inconsciente coletivo composto por arquétipos — formas universais de
experiência que se manifestam em símbolos, mitos e padrões de comportamento.
Seu objetivo fundamental é o processo de individuação, pelo qual o indivíduo
integra os diferentes aspectos de si mesmo, alcançando maior unidade e
consciência.
[4] Carl Gustav Jung foi um dos principais pensadores da psicologia do
século XX e fundador da psicologia analítica. Discípulo inicial de Freud,
afastou-se de sua abordagem ao desenvolver conceitos próprios, como o
inconsciente coletivo, os arquétipos e o processo de individuação. Sua obra
busca compreender a psique humana em sua dimensão simbólica, integrando
elementos da mitologia, religião e cultura como expressões universais da
experiência interior.
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