terça-feira, 22 de agosto de 2023

Vida aparente


 

Todo dia é o mesmo parque,

Todo dia são as mesmas árvores, as mesmas flores, os mesmos pássaros.

As mesmas pessoas se exercitando.


Todo dia é o mesmo parque,

Todo dia é o mesmo sol, as mesmas nuvens passando e encobrindo pontos específicos.

Todo dia as mesmas formigas, os mesmos grãos de areia.


Mas todo dia é um parque diferente.


Quando cheguei desatento, sendo cego olhando tudo, vi tudo igual, tudo do mesmo.

Fui chegando de mansinho, vivendo pouco a pouco o parque, sinto-o hoje de outro modo.

Vejo que o sol de hoje não é o mesmo sol que ontem,

que a formiga não é a mesma que ontem

que as pessoas não são as mesmas que eram.


Aquilo que parecia estático é metamorfoseado pouco a pouco a cada fração de tempo.

Um olhar atento, cuidadoso, gentil, faz perceber a diferença, sabe fazer notar que o bom dia não é o mesmo do dia anterior.

Sua carga de bondade ou maldade pode ser maior ou menor, nunca a mesma.

O canto do pássaro não é o mesmo, mas parece.

O fio invisível que liga toda as vidas e as torna una. A ficção jurídica chamada parque é diferente. Não ele em si, mas o que há dentro dele.

É tudo graciosamente posto de um jeito novo todo dia.


São Paulo, 22 de agosto de 2023


Deivison de Paula



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