segunda-feira, 6 de junho de 2011

Ausência



Sinto muito se disse o que não devia
Se amei quando não podia
Se menti sobre o impossível
Se falhei com o que queria

Sinto muito por não ter dado  o que esperou
Encaixar-me no vão da tua porta
Aquela mesma que criou a minha revelia
E que agora trava a rosa

Sinto muito por não estar em seus pensamentos
E não poder  entregar o que tenho
Por não lhe tirar o ar e nem chão
Por ser assim como sou

Sinto muito por não ser aquilo que quer,
Por falar quando devia calar
Por não lutar quando das forças resta inteira
E não acreditar no que leva a crer

Pois das juras que fiz uma única resta inquebrável
A de velar seu sono e ser seu protetor
Permaneço, logo, distante, mas presente e defensor
Sem olhos nos olhos,mas cheio de amor
Cuja correspondência passa a ser detalhe
E faz do meu amor inteiro, independente

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Satyagraha

                                                  

                                                                                                    Vai esperança e afasta a solidão
                                                                                                   Vai e não abandona esse coração
                                                                                                   Cresce em tamanho e disposição



O que pode um ser movido pela esperança fazer quando a mesma fraqueja? Se somos , assim como somos, feitos de esperança, a sua falha é a falha do próprio ser. O peso da vida afastada dos amigos, daquilo que amamos ,nos divorcia das raízes  universais da vida. Quanto mais pobre é a anêmona desprendida do coral, o peixe afastado do mar, ou as aves dos seus bandos.
                Quando assim é tudo se torna peso e a vida insuportável. Pode-se entender momentos hediondos como esses descritos por meio de uma simples equação. O cansaço é a falta de esperança. Quanto mais vemos a injustiça prevalecer, os homens se matarem, ou a falta de sentido prosperar, mais nos cansamos de ter esperança e, por isso, da própria vida.
Devemos, pois encher nossos corações com a mais genuína esperança. Transbordá-los com a ingenuidade das crianças e, que ainda não encontraram as barreiras disponibilizadas pelo mundo e, por isso, acreditam que tudo é possível. De fato é, mas nós, homens que se julgam grandes temos os corações fracos e; não percebemos que os empecilhos são simples imagens, colocadas para nos afastar dos problemas verdadeiros.
Foi a boa e velha esperança infantil que fez com que um indiano percorresse 400 kilometros à pé para produzir sal. Possibilitou a ele não  ver os canhões britânicos que apavoravam o mundo inteiro-menos ele.
Ninguém menos que ela animou um jovem chinês que não viu a terrível maquina de guerra na praça da Paz Celestial, mas se encheu da convicção de que aquilo não podia continuar e sozinho desafiou aquilo que derrubaria edifícios inteiros.
Sim, devemos por lenha na fornalha da esperança é lutar por um novo possível. A luta é árdua e cheia de lágrimas, porque nós mesmos somos adultos e maculados pela escuridão. Mas podemos “transformar o pesado e recebê-lo leve “, polir o espelho da nossa vida, devotando-se para a prática do justo.



domingo, 16 de janeiro de 2011

Memórias do agora

                                                   Memórias do agora


Agora: tempo de ternura,
de palavras  inteiras
E sentidos completos:

Completude

Tempo de ser quem somos
Suar o suor e comer o açúcar
No porvir a síntese:

Verdade

Não temer o acaso
Nem a vilania dos tiranos
Já que temos em nós a medida:

Virtude

No jogo de contrários da história
Resta a vida
Rio perene:

Inabalável

Rastros que se encontram
Da vida que passou resta o mato pisado
E o frescor da manhã que anuncia nova colheita

Esperança:

Caminhar sem passado
Pois alojado no presente
Não merece cantos já que é:

Presente

Assim como os opostos se justificam
O passado e o futuro unem-se
E criam o presente

Imenso guarda chuva de sentido,
que tudo abriga
que tudo é

São Paulo, 22 de junho de 2010.






Sacomã,Varginha e Vila Anastácio

Sacomã,Varginha e Vila Anastácio

            Chega a assustar a quantidade de placas dessa cidade. Tantos destinos possíveis, tão maiores que a nossa capacidade de viajar e até mesmo de imaginar. Só de pensar o sem número deles, os terminais Sacomãs, Varginhas e as Vilas Anastácios existentes, lugares que nunca conhecerei e que não passam de nomes estranhos para mim. Alguns já ouvi falar, um primo que mora perto, um amigo do amigo que vai fazer qualquer coisa por ali, ou foi assaltado lá.
            Destes tantos lugares, alguns sei mais que o nome e fui de passagem, mas também esbarro na escassez da memória, não me lembro ao certo o caminho e me afundo mais uma vez nas coisas que não retesei, nas experiências que abundam e me escapolem pela memória.
            Nesta infinitude de países desconhecidos, de orientes, próximos e distantes, estão as pessoas que também atordoam pela quantidade. Não é tanto pelo que são nem pela qualidade de seus seres que, cá para nós, é tão variada quanto se pode variar. Altos e baixos, gordos e magros, bons e maus e, destes extremos graduam-se em mais ou menos altos e mais ou menos baixos, mais ou menos gordos.
            Só de pensar cansa, uma cabeça não pode entender todas as coisas que giram e insistem em nos jogar contra a parede, clamando por uma solução, ainda que superficial para sua problemática, cobrando de nós uma justificativa, um motivo para a existência delas.

                                   Por que existo ? Por que quer me conhecer ?

            Essa mesma cabeça que repousa sobre o vidro do ônibus acorda do sono que interrompera suas divagações e reinicia o ciclo, outro postulado da existência. Sim, meus caros heróis leitores, o fluir é a única certeza da vida e não o pensamento. Certeza de que o vivo morre, que o dia torna-se noite, que o rio torna-se chuva, que o filho torna-se pai e tudo, absoltamente tudo, que é vivo transita  

                                                -Fluo logo existo !

            Os sons desrritmados do coletivo ressurgem quando a meditação do jovem perde o fio condutor. Sua atenção é desviada por uma senhora, que sem motivo a atraiu, era de fato o tipo de gente que visivelmente havia se acostumado a não atrair atenção. Não a queria para si, como se escondesse algo. Sentia vergonha de suas formas exageradas, quando nua diante de seu marido e, por um arremedo de vaidade que havia resguardado por anos de represamento, tirava suas roupas no escuro para esconder o obvio, o que todos sabiam- sua infelicidade- mas não era disso que se envergonhava, era a atenção sobre aquilo que não gostava, do intruso que tomou lhe conta da alma e das silhuetas.
            Bolsas e sacolas convergindo no ar com os aros da roleta do ônibus- mais barulho e mais atenção para aquilo que deveria ser imperceptível. De fato era para todos que estavam ali. Aquela senhora não existia para os que ouviam música, para os que dormiam, para os que mascavam chicletes, para os que sonhavam com um mundo distante. As atenções são quase sempre direcionadas para a fuga, como se esse mundo fosse uma prisão de almas-herança platônica maldita, e dessa forma consumimos nós mesmos “para que a pena seja cumprida o mais rápido possível”.
            Não peço desculpas, leitores, pela minha intromissão excessiva na cadência do texto, mas admito aquilo que já é notório. Não se trata de um enredo independente e imparcial, mas um fruto do meu espanto, da letargia social, da miséria humana.
            O incômodo ocasionado pela exasperação de atitudes somente fora percebido nesse vácuo, num clarão de realidade, além do torpor gerado pelas instigações da cidade. Quando o menino via e se sentia vendo e, não duvidava disso e, vivia momentaneamente, percebeu que a mulher sentou a seu lado, assentando o distúrbio que carregava. Não era uma história ambulante revestida de carnes que se sentou, mas um fenômeno, uma mulher que ali estava, dotada de cicatrizes e de aspectos que estava pronta a defender com sangue, como qualquer ser humano. Nada havia mudado, somente o olhar dele.
            Sentiu um medo inexplicável, como se estivesse prestes a ser dragado a uma realidade que não era a sua, para aquilo que não queria. Ao mesmo tempo almejava ir ao fundo desse rompante, dessa sensação de poder, finalmente poderia fazer algo grandioso. Não sabia ao certo o que era, nem poderia contar seu feito para as gerações vindouras, contudo sentiu a vaga antes de uma grande onda e ao invés de boiar para o abismo lutou contra. Imaginava que assim estava seguro, no entanto, o contrário é o rigor da verdade e não fazer era a sua prisão. Estava preso numa cidade em que tudo se pode e nada se tem. Todas as cidades são assim em proporções, mas aqui é areia movediça a qual ainda não sabe, mas sente que está prestes a se emancipar.
            Oprimido no banco olhou no rosto dela e admirou. Nunca havia se sentido tão intimo de alguém sem trocar palavra.  O sofrimento dela, o marido que se embriagava para esquecer e lhe batia por prazer, seus filhos desesperançados e as contas sem fim.  Digressões que lhe fez ver beleza naquela figura, uma legítima representante da resistência, pois se mantinha integra diante do acumulo de pouco. Sofria visivelmente e carregava as marcas desse sofrer, porém guardava num canto recôndito de si todo o bem da humanidade. Seus sonhos eram guardados pela noite e não ousavam se estender pela amanhã adentro, ficavam presos, pois por serem feitos de matéria etérea não agüentariam o tranco do dia-dia, como ela mesma se acostumou. Era forte e sustentava o mundo em suas costas de mãe.
            Ao fitar seu rosto duro se enterneceu e foi tomado por compaixão, era capaz de aliviar as dores da mulher. Não sabia como, mas o impulso de destravar o seu peito de suas mágoas era ora irresistível. Chegou a pensar na natureza de sua vontade e questionar sua sanidade, mas estava lúcido a ponto de ver lógica em detalhes absurdos. Quis crer que a loucura era o excesso da razão, uma não compartilhada e que agora o tornava incomunicável em sua inteireza
            O visual amável que o rosto do jovem adquiriu, por razões quase mágicas quis falar. Balbuciou palavra, inaudível e, infelizmente, o impulso de falar deu lugar a um medo de si e da situação. Viu o ridículo que era querer dizer coisa que não sabe e nem poderia saber, piorada pela incerteza quanto ao caráter da senhora. Poderia ser ríspida, ou confundi-lo com um marginal qualquer que deseja ganhar confiança de pessoas ordinárias, como ela. Isso lhe era terrível. Contudo, pressentindo, a mulher se adianta e lança um tímido boa tarde, sem mudar o status de estranho do jovem. Ele não responde e censura tacitamente a mulher. Se odeia por o fazer, já que ela fez aquilo que queria, mas não emenda sua posição depois porque viu o quão odioso era responder a um simples bom dia com tamanha cerimônia e com tanto atraso. Sua vontade era mudar de banco, mas não conseguia ser rude a esse ponto. Fechou os olhos, recostou-se na janela, esperou que qualquer pessoa que tenha visto a cena esquece-se a mesma, se perdesse no emaranhado de cenas possíveis de cidade, mais um caso perdido na memória.
            Tentou voltar para suas considerações iniciais. O encerrar em si lhe dava alegria e lhe eximia da frustração do querer e não conseguir. Queria voltar para o mundo insolúvel de sua mente, mas que havia se acostumado com as perguntas que lhe batiam, eram sempre as mesmas e já sabia dos meandros.
            Abriu os olhos e mirou o dia nublado, foi até o fim de semana passado e lembrou da Ana, sua namorada, e da conversa e do passeio. No carro vizinho tinha um homem elegante com relógio brilhante. Tudo aquilo lhe cansou e nem o pensamento afastou o tédio de viver
            A mulher saiu sem ser notada e ele a viu pela janela, dessa vez estava estagnada em ponto incomum e o encarava com rosto angelical. Estava com um sorriso largo e ia fundo em seus olhos, como se soubesse de tudo, seus segredos, pensamentos eróticos, os beijos lascivos que sonhou dar em moças pela rua. Quis pular pela janela e abraçar a senhora grande, pois seu olhar amistoso o libertava de si e dava sentido para o resto. O sentido do mundo era a sutileza daquele ser que queria para si.
            O ônibus arrancou e deixou ela para trás, afundou-se mais no banco e tentou remontar o ocorrido e todos os detalhes em sua mente.
            Não conseguiu por obvio, mas o que havia lhe ocorrido? Aquela figura que o atraia e o repelia com a mesma força. Sentiu-se um elétron naquele momento,
                                               mas que diabos aconteceu ?

            Procurou na mochila qualquer coisa para ler, distrair a mente e esquecer, mas por mais que via as letras enfileiradas nenhuma tinha sentido, até isso a mulher lhe tinha roubado. Quis voltar no tempo e dar outro desfecho para a cena e quem sabe pegar todos os dias aquele mesmo ônibus e em uma esquina dessas  reencontrá-la da mesma forma, com o mesmo vestido, com a mesma alegria triste, de quem esquece rápido as mágoas e continua a despeito de tudo.
            Mas para que queria tanto vê-la novamente? A história dela intuída por ele poderia ser outra. Certamente era outra, mais grave ou não; isso não importa muito, porém o que para si era crucial seria entender os motivos daquela fixação, com ares patológicos, para com aquela mulher. Por mais fantástico que fosse o passado que ele tinha criado para ela e acreditado nele, esse não passava de mais um diante de tantos milhões de passados possíveis. Quantos assassinos em serie sentam ao nosso lado no coletivo? Quantos homens e mulheres com fragmentos inimagináveis de memória esbarram em nós e perdemos a chance de nos maravilhar com seus dramas?
            Essa é a cidade que temos e a perdemos todos os dias. Preciso admitir que cada vez se torna mais difícil para mim escrever, me identifico como membro dessa cidade e olho a cena com o mesmo medo com que todos assistiram ou estão lendo agora. Vejo como se nossas vidas estivessem passando em um filme diante de nossos olhos e não nos atrevêssemos a usá-la, a gozá-la, sempre sobre o mesmo argumento tacanho de auto comiseração. Somos muito jovens para vivê-la ou muito velhos ou muito esquisitos. Ainda estamos, todos nós habitantes desses adensamentos humanos tão comuns, esperando o dia que a vida começará, que a cidade não será mais cinza e as pessoas conversarão sobre seus problemas e o policial da esquina tentará, sinceramente, ajudar na solução dos conflitos.
            Pois é meus caros, é a utopia que é todo o mundo que ainda não é. Todavia essa utopia é tão real para alguns que os mesmos respiram todos os dias sonhos dessa magnitude. Sonhos de liberdade, ir além das convenções e repousar sobre a natureza do ser.
            Diante da ausência de respostas, como é comum se supor, veio a duvida. O jovem começou a duvidar dos seus sentidos e imaginar que tudo não tinha passado de um sonho. Aquela senhora era um produto de sua mente  imaginativa de jovem que tinha se aproveitado de seu quase sono. Cabeça matreira pensou ele, quis perguntar ao passageiro que sentava logo atrás sobre o que se passou, mas mais uma vez foi traído ou alarmado pelo senso do ridículo e se conteve no ímpeto.
            Quis sentir o calor e nada, lembrou da dificuldade com que a mulher conseguiu passar pela catraca, do bom dia, do medo.
            Viu como a cidade fora construída sobre os escombros do homem médio. Com fundamento nos preconceitos, na pequenez
 e na mentalidade dominante de uma era. Há que se empurrar para dentro de si aquilo que não é comum, aquilo que não é visto nos modelos de comportamento.
.           Tirar da vista o sofrimento e fazer com que o homem engula à seco e permaneça de sorriso plástico, fingindo que não existem efeitos colaterais ou que os mesmos são conseqüência natural da vida .
            Os que morrem de câncer por causa da glória do fumo. A manequim que aniquila sua vontade em nome da magreza. O mineiro que mata e morre para sustentar a cobiça pelo ouro de alguns.
            Essa porcaria toda que não serve para o propósito de fazer a existência melhor, pelo contrário, a enche de fúria e tédio e alimenta a exploração do homem pelo próprio homem.
            Por isso somos jogados a esse mundo que não é, mas poderia ser. Um mundo de sonho onde o natural é morto pelo fabricado e para a sua manutenção torna obrigatório o entretenimento.
            Para isso continuar precisamos nos esquecer da vida e nos entorpecer com o enlatado. A televisão que não pode desligar. O computador que não pode se desconectar. O celular que não pode calar. Nada disso pode nos deixar porque nos mantém distraídos e com eles não vemos o que as coisas são de verdade. Esse grande engodo que é a contemporaneidade.
            Somos todos cegados pela luz do glamour, pelos faróis que apontam a ausência de sentido e nos faz caminhar feito zumbis para onde todo mundo vai.
            E se o jovem conversasse com a senhora gorda, se lhe desse bom dia, se lhe ajudasse com as compras e juntos procurassem soluções para o problema dela. A incentivasse a mudar a situação, sair de casa, amar verdadeiramente o marido...Essas não seriam atitudes verdadeiramente humanas ? Será que um dia haverá uma terra onde o mais forte por reconhecer sua força ajudará os mais frágeis na busca de uma condição melhor de vida? Que não se matará por que se pode, mas se salvará porque se quer, reconhecendo que é na diversidade que o homem exerce a contendo sua própria humanidade.
            Um dia em que a catraca feita na medida da maioria dará lugar para uma feita para a minoria que não está na média. Seja por não querer ou por não poder.

           
                                                                      
                                                                       São Paulo, 12 de outubro de 2010.
                                                                                              Deivison de Paula