sexta-feira, 30 de agosto de 2024

O homem que falava politiquês

 

O homem que falava politiquês


Saibam vocês que o Brasil não é para amadores, nem a vida. Vejam só, um dia desses estava passeando num parque com meu filhinho, quando a esmo, deleitando-nos com o tempo, nos vimos abrigados a sombra de algumas árvores, paramos. Passei a vê-lo brincar com algumas mesas dessas pequenas feitas para crianças e deparei-me com uma série de livros a disposição, a la carte. Era uma biblioteca a céu aberto no parque. Escolhi para ler para ele uma adaptação com ilustrações do conto escrito por Lima Barreto, chamado o “homem que sabia javanês”. A despeito de meus esforços, rapidamente o piá inquietou-se, afinal esse tipo de leitura não é propriamente para sua idade. Sua atenção se perdeu, como de se esperar, por entre as diversas atrações do parque: a terra, a luz, o sol, etc. Preferiu brincar com a natureza nos bancos e jogar pedras ao invés de ouvir a minha interpretação daquela estória maravilhosa.


Já eu fiquei fascinado pela lembrança daquele livro lido na minha juventude já distante. Um trabalho lindo de ilustração e adaptação. Parei de ler exclusivamente por causa dos puxões e ameaças de choro, que estavam prestes a se concretizar, caso não fossemos imediatamente para outro lugar no parque. Por mim mesmo estaria até agora dentro daquele livro. Negociei com o Gael o máximo que pude, retardei para que continuasse em meu interesse saboreando aquela estória, mas não deu certo por muito tempo, fui lendo o mais rápido que pude, enquanto entre um pulo e outro ele redobrava suas ameaças de cair no choro. Não aguentei e cedi, como quase sempre.


O mais intrigante da estória relatada no livro(que só pude terminar mais tarde sozinho em casa) é a semelhança com o Brasil e sua miséria atual. Alias nada mais atual por aqui do que o tal homem que falava javanês, um bacharel em direito, como eu e muitos dos coachs por aí. Era, na estória, um malandro que precisava sobreviver e decidiu para tal se candidatar para uma vaga de professor de javanês, sem que soubesse coisa alguma da língua. Ou melhor sem que soubesse nada substancial da língua. Conseguiu o cargo de professor de um homem muito nobre e bondoso, simplesmente por saber mais do que os outros. Fácil né. Decorou meia dúzia de palavras que encontrou em um dicionário, contou uma mentira sobre como tinha aprendido a falar a língua e isso foi o suficiente para ludibriar o crédulo e ignorante homem e ganhar o cargo de seu amado professor.


Essa esperteza lhe garantiu a fama de falante de uma língua exótica e a possibilidade de galgar cargos na administração pública. Vejam só, na estória, aquela do Lima Barreto, no tempo inicial da República saudosa do Império, ele chegou a ser diplomata do Brasil em África. Em São Paulo, por outro lado, um desses que se metem a saber de tudo está prestes a ganhar a Prefeitura de São Paulo. Muito fácil e simples, né.


Nenhuma antipatia pelo moço, esse candidato real de São Paulo, ao contrário. Ele é fruto de nossa sociabilidade, tem sua graça e necessidade. Conheço alguns do tipo que andam por aqui e ali e vejo nele os mesmíssimos vícios tão ordinários que espuma as bocas da humanidade atual. Afinal, quem de nós pode se dizer livre desses problemas tão comezinhos do espírito. Fácil vê-los nele não em nós. Atirem a primeira pedra quem não saboreia pelo menos um pouco essas nossas vilanias. Ninguém, né. Se a admoestação fosse alterada para vote em fulano quem nunca desejou ficar rico sem trabalho sério, da noite para o dia. A eleição estaria nesse caso garantida em seu favor, teríamos assim um vencedor já no primeiro turno. Duvidam? A multidão procura um mais alto cuja voz a guie. Pronto. Eis aí o profeta que o povo construiu a sua imagem.


Por falar em profeta este até abençoa pessoas paralíticas, porém a despeito de suas vontades, do paralítico e do pretenso curador, elas não andam. Talvez tenha faltado inspiração para o profeta ou humildade. Seu canto sedutor perfumado por uma retórica de prosperidade aponta para a superação das carências materiais tão comuns em nosso povo. Se ele ajuda nisso só pode ser um enviado de Deus e, por isso, nele vou votar para a solução do problema político. Será?


Será que o problema da carência de recursos é o problema em si e não o pecado que corroê as bases de nossa humanidade, que nos faz esquecer a função do dinheiro em nossa vida e a própria razão de se viver. A tentação que o Diabo fez ao nosso Salvador no deserto, pelo que me parece, anda nessa linha. Darei-lhe toda glória e riqueza do mundo. Sabemos que o Mestre negou, pois sabia com quem seu amor e fidelidade estava, já o candidato é de se verificar. Demos tempo ao tempo, a eternidade garante aprendizado infinito. Vi de sua boca em um podcast em que ele afirma ter aviões e helicópteros e de certo concluo que esses veículos não são sinal de uma vida abnegada. Ele quer curar como Cristo, sua glória, mas não sua renúncia. Nesse mesmo programa citou como ora faço parte das escrituras sagradas, se palavras túmulo do espírito ou vivas, não posso dizer. O que sei é da contradição e a possível disrruptura que alguém que estressa os limites do mundo político, econômico e religioso pode representar. Torcesse eu para o circo pegar fogo queria vê-lo eleito, porém o nível de confusão que uma pessoa cujo patrimônio parece ter se materializado por efeito de uma obra alquímica dentro do cenário degenerado da política faz-me desconfiar de suas associações e simplificações. 


Acompanhemos o resultado das eleições paulistana e oremos para que os aprendizados sejam feitos a contendo. Os do povo, os do candidato e os desse escrevinhador que pasta para entender o óbvio e para não julgar como deve.








quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Jesus em uma macieira

 

O mar revolto por causa da tempestade é o mundo astral em que o discípulo busca superar em si. O mundo astral é o quadro em que os materialistas se encerram deliberadamente, embora a ele não pertençam, vivem reclusos nele por medo de se assumirem parte de um mundo maior e mais belo, com mais sutilezas e digno do que chamamos vida. A aparição do Mestre no mundo físico, efeito dos fatos espirituais e das causas, age sob ele e é uma Força irresistível que sempre o vence. A Luz de Deus que sempre vence e que vem quando feitas pelos homens todas as tentativas separatistas de vitória, quando caem em todas as ilusões e chafurdam nos becos sem saída da transitoriedade da matéria e da personalidade que construíram para si. O dialogo entre Simão e Jesus é o elo eterno existente entre o Mestre e o discípulo que funciona como princípio sustentador. O discípulo sincero que ama o Mestre mais do que a si próprio, mais do que ao seu povo, sua esposa, mais do que a seu filho ou qualquer outra coisa ou pessoa que se relacione. A visão que permite o buscador procurá-la. O Mestre afia a arma para vencer o dragão, constrói-lhe a postura mental a qual permitirá caminhar sobre o mar revolto do plano astral, cujo reflexo se espraia para o mundo físico. Jesus é o exemplo de Mestre e Simão, que mais tarde ganhou o nome de Pedro, é o exemplo de discípulo. Utilizado como paradigma o qual os homens devem procurar em si, tanto a figura do Mestre quanto a figura do discípulo. O primeiro para seguir, o segundo para se identificar consigo próprio e, portanto, ser. O discípulo é um homem prático, age no mundo, possui mãos hábeis para o serviço, coloca-se como aprendiz e eventualmente deixa de ser em determinadas questões; ganha confiança e uma habilidade que não sabia possuir. O Mestre é, inspira amor e desafia. Permite que o discípulo creia ser possível aproximar-se dele, fazendo o que ele faz, somente para reaparecer num novo patamar da espiral onde o discípulo se verá novamente incapaz, aprendendo dessa vez a caminhar por águas ainda mais revoltas e profundas, além das que já foi capaz de imaginar; novamente, refazendo tudo num grau de maior profundidade. O impossível mais possível. O perfeito mais perfeito. A paz ainda mais Paz. Shalom, Shalom. Naturalmente há uma contradição em termos que aumenta gradualmente a tensão. O discípulo, prático, se confronta com o Mestre, na sua perspectiva, abstrato, vago, fugidio. O discípulo quer o poder para empregar naquilo que se dedica, para construir uma ordem social mais adequada, restaurar. O Mestre sabe, o discípulo quer saber. O discípulo cairá até aprender o mecanismo e suportar a tensão em equilíbrio, mantendo os olhos fixos nos olhos do Mestre e perceber que o resto é fruto da ilusão e que precisa ser vencido. Um equilíbrio dinâmico que uma vez conquistado e mantido dará inicio ao trabalho.