Ainda
que eu seja o não nascido, a Alma que não morre, ainda que eu seja
o Senhor dos Seres. Entretanto, como Senhor da minha própria
natureza, Eu me manifesto através do Poder Mágico da Alma. Gita 4.6
A
mente precisa ser conquistada. Sua estrutura e posição colocam-na
na posição de melhor amiga ou inimiga, posto que através dela
ganhamos a liberdade ou nos entocamos, ainda mais, na escuridão da
cela. Seus termos são, portanto, de um grande paradoxo, os quais em
si não possuem solução. A mesma chave que abre a cela a tranca.
Muitas
são as vezes que se acredita estar transcendendo-a, orando
ou meditando, e, na verdade, se está caindo ainda mais fundo nas
tramas da mente, de quem se pretende desvencilhar.
Meditar
não é anestesiar a mente e ganhar certa quietude. Meditar, ao
contrário, é queimar as limitações que a natureza manifesta e
nesse local verdadeiramente agir. É, como uma vez ouvi, um sinal da
fúria serena dos idealistas pragmáticos. É
tocar sem mãos para agarrar a liberdade e trazer de lá uma imagem
ou mapa de como as coisas são.
Em
outras palavras se se sabe quem é o Mestre e o que ele significa, é
recebê-lo, captar seus aconselhamentos e pô-los imediatamente em
prática, maneira pela qual podemos verificar sutilmente a veracidade
do processo ou se se trata de mais uma artimanha da mente que faz de
todo o possível para dar-nos a impressão de segurança e domínio
sobre os eventos futuros. Não me entendam mal, mas em verdade,
meditar é tratar com o demônio, negociar com ele e conquistá-lo
pouco a pouco, pois é a fronteira da consciência. Fazer com ele a
Obra de Deus.
Voltando
sobre a função cósmica da mente, a de dar testemunho a respeito de
um encadeamento lógico, conferindo segurança no balanço do vai e
vem da maré da consciência. Não há nada de errado nisso. É bom…
sem ela firme como uma ancora em sua natureza vacilante e dual, não
suportaríamos o processo de desabrochar da consciência e seria
impossível cumprirmos o mandamento délfico de conhecer nos a nós
mesmos.
A
respeito da veracidade do processo, como saber se a meditação está
servindo para agravar a ilusão ou para inserir paulatinamente fração
de luz no sistema? Como flertar com a loucura e não ser por ela
dragado? Como pegar a joia da cova do dragão e trazer a ele também
de forma espontânea como seu servo? Para encaminhar um tratamento a
esse enigma me parece mais fácil apontar o que não é confiável na
apreensão da realidade. O mais óbvio é não confiar em outras
pessoas a respeito da veracidade do processo, exceto para tomar como
mais um dado para a compreensão. Se o objetivo é superar o
isolamento da personalidade questionar outra personalidade que por
óbvio tem menos contato do que você com sua sagrada alma é por
demais tolo, o que também é desconsiderar totalmente a opinião das
pessoas honestas que convivemos, salvo homens e mulheres
autorrealizadas, cuja opinião deve ser refletida com ainda mais profundidade.
Esse argumento é potencializado quando se considera as diversas
comunidades espirituais e igrejas. Será que caminhar com largo grupo
exotérico é sinal de se aproximar das verdades do ser? Creio que
por si não e esse elemento só deve ser considerado em subordinação
a outros pontos mais dignos de crédito. Particularmente vejo as
comunidades espirituais e religiosas exclusivamente como oportunidades de serviço e de aprendizado, nunca de apreensão direta da realidade
que se obtém com êxito mediante o exercício gradual e responsável
de transcendência interna chamado meditação.
Outro
ponto que não pode ser dado como fato a respeito do sucesso no
empreendimento de se apreender um pouco mais a realidade são as
visões que se obtém por uma maior liberdade no astral. Talvez não
devesse tocar nesse ponto por se tratar do que parece grande ilusão
que acometem as pessoas no caminho santo, porém o faço ainda sob o
risco da incompreensão. A visão, por mais que seja muitas vezes ela
o fôlego para o trabalho de se purificar, não deve ser ela
considerada totalmente creditada como critério da aferição da
realidade porquanto a impressão que sofrem as mentes podem derivar
de diversas fontes e não são necessariamente fruto de uma intuição
da alma e uma instância mais excelsa do ser. Pode tratar-se de um
pensamento-forma criado por um grande ser em seu caminho de
iluminação e libertação captado por sintonia, uma vez que se
também está nesse processo e, por mais inspiradora, que seja a
visão a mesma não provém necessariamente da Fonte como
interpretamos. Ou caso pior, interferência direta de um ser sob o
outro com vista a negar-lhe a liberdade. Um crime gravíssimo! Assim,
no primeiro caso, parece-me mais um presente deixado no caminho
místico por aqueles que abandonaram suas cascas no caminho da
revelação e devem assim ser considerados. Como um oásis no
deserto, uma lufada de ar fresco, porém jamais como meta ou ponto
final da jornada, a despeito da magnificência e beleza que a nossos
olhos referidas maravilhas evocam. É uma caverna abandonada que
provisoriamente ocupamos e ainda podemos sentir o calor do fogo
gerado por seu antigo habitante, que através do astral permitiu que
a ele tivéssemos acesso dessa maneira.
Agora
não tenho animo de apresentar mais argumentos pelos quais não
devemos confiar na opinião alheia, nas visões e na sincronicidade
forjada, pois todos essas tendências de uma forma ou de outra dão a
guia do controle para a mente, maneira pela qual jamais poderemos
corrigir o curso e nos ajustar gradualmente para o propósito do
Plano, ou seja, alimenta a fuga ao trabalho divino de se revelar a si
mesmo.
Creio
que devemos em verdade confiar no coração que é o veículo que
juntamente com a mente nos dá acesso às energias da alma. O centro
do coração que no corpo vital é um elo com a alma nos permite
sentir a alegria de estarmos no caminho. O calor da liberdade que
chega muito antes da constatação mental que estamos no paraíso.
Enquanto a mente trabalha para nos estabilizar e nos dar significado
aos fenômenos, fazendo crer que já estamos no lugar que devemos o
coração simplesmente sabe o que precisamos sem levar em
consideração as circunstâncias externas, fazendo, portanto, o
papel da sede, no corpo vital da alma. Depois da jornada, como
saberemos que a caverna que encontramos é o local que receberemos os
mensageiros de Deus ou uma outra, igualmente bela e majestosa, mas
destinada a outro ser? Quais reprimendas deverão ser dirigidas para
o ser que não reconheceu as suas orientações e ainda interferiu
nas de outro filho de Deus, ocupando inadvertidamente o repouso de
outro ser, pretendendo tomar para si a glória de um irmão.
O
Mestre fala quando o momento convém e quando estamos empenhados a
brandir a espada e afugentar as ilusões que teimam em nos perseguir,
pretendendo que demos a elas a existência que originalmente não
possuem. Elas sabem que somente existem enquanto estamos paralisados
ante ao terror que nos causam. O medo da “perda” dos que amamos,
de “desperdiçarmos a vida”, de enlouquecermos são todos
mecanismos da mente que nos conserva no espaço conhecido. É a zona
de conforto onde é senhora e prefere reinar nesses escombros do que
seguir aquela que possui o mapa, posto que isso implica a entrega das
falsas certezas, renúncia a admiração de ignorantes e fim da
repetição ensurdecedora de padrões de comportamentos que não
demandam qualquer sensibilidade ou pertencimento ao Todo. A mente
deve silenciar, se recolher, se limpar de toda negatividade acumulada
pela ilusão de isolamento, suspender-se. Manter-se observadora sem
se precipitar e tomar a dianteira do processo, que deve ser comandado
pelo imediato: a alma, o coração que escolhe o que é, não o mais
provável nem o mais conveniente ou fácil.