Verdade do Tempo: Zeitgeist
Muito se fala da força dos movimentos populares disseminados através de redes sociais e aplicativos de troca instantânea de mensagens. Hoje boa parte da vida das gentes se passa entrincheirada em telas iluminadas, capazes de magnificamente dá-las a impressão de que interagem com seus pares e que suas opiniões importam, crendo-se ter uma experiência comunitária. Nada de novo no quartel de Abrantes…Afinal sempre se quis ser relevante e quase nunca se pode, como se disse, nenhuma novidade.
A pregação do farisaísmo nos sinédrios de Israel em defesa estéril da lei mosaica e a argumentação de que os garotos do silicon valley são as bestas prenunciadoras do apocalipse em nada se diferencia do diversionismo que se pratica num mundo, como sempre, carente de sentido. Vem de longe, talvez de antes dos tempos de Matusalém, o “entretenimento banal” que divide e oprime- com, para dizer o mínimo, alta taxa de sucesso.
Por meios próprios da época- click bait’s e sensacionalismos essas forças tiram a oportunidade de fazermos algo útil com o tempo que nos resta, combustível do chicote empenhado no lombo de nosso Salvador. Apanhar depressa, portanto, nossa cruz, parece uma opção razoável já que o jogo está um milhão a zero para o time da rua de baixo e falta darmos a nossa fração. Julgo haver tempo ainda para nós cumprirmos também a via crucis, por nossa conta, para no final, com sacrifício sermos curados.
Afinal, o que é relevante nesse mundo ? De tantas coisas quais delas são as que nos darão a experiência que precisamos ter para darmos o próximo passo na busca do que almejamos? Tal qual andarilhos no deserto caminhamos com muito pouco, carregamos nossos ossos até o que queremos crer ser a terra da promissão, no caminho nos deparamos com o vasto oceano azul. Quando, enfim, poderemos beber da água doce, fonte da vida? Quando o azul será o sinal da beleza e esta prenunciará a redenção, não a água salgada do desejo que queima a garganta apressada.
A questão, contudo, que se apresenta face a essa circunstância recorrente através dos tempos é a interação entre os homens e o que eles fazem com o tempo que lhes cabe. Eis a questão eterna e simples em seus termos...afogar às tensões pós-trabalho nos braços de um sofá sedutor e vencer uma guerra ideológica ganha contra um país desconhecido com argumentos favoráveis aos dogmas de fé da nossa cultura, mantralizados por sua vez por uma voz sexy- ou com o auxílio da, não tão velha assim e precaríssima epistemologia, buscar diferenciar o real do irreal e sua natureza?
Até agora a turba do entretenimento tem ganhado de lavada a parada. Ninguém quer saber de fazer ciência ou qualquer coisa que o valha. A outra turma, como Darcy Ribeiro, se gaba de ter perdido todas. Uma lástima… vez ou outra surgem ideias de como aproveitar a maré contrária e jogar partida de futebol na subida, mas não deu certo ainda. Nossos jogadores são melhores, mas o campo é deles, fazer o quê. Perdemos muito e o dia da vitória ainda não chegou, mas vai. A eternidade está aí.
Nessa conjuntura, de tempos de verdade, ou revelação para os íntimos, onde se defende direitos excelsos com verve inflamada e o bolso cheio o jogo deve ser estudado com régua científica e apego na fé com o cuidado de pedir justiça com moderação, pois há grande possibilidade de o peticionário estar mais do lado de lá do que de cá, o que coloca o Altíssimo em um dilema - reformatio in pejus ou fiat justicia pereat mundus. Sim, vejamos qual será o entendimento jurisprudêncial.
Foi nos dito que o dia do Senhor chegaria de noite como o ladrão e se captei o sinal do amado guru, de fato, Isaías tinha razão, não Éneas, o político, mas o profeta. Afinal quem pode dizer palavras abonadoras sobre as gerações de juízes, advogados, promotores, influenciadores, artistas e outros de larga fama no Brasil de hoje. Pois é, não tá fácil para ninguém, pior para os que venceram todas até agora, aguardemos…
São Paulo 18 de fevereiro de 2024
Deivison de Paula
